A Parábola do Bode do Padre
Um relato indigesto
Lá no interior, havia um casal que morava em uma fazendinha. O casal brigava muito, qualquer coisinha era motivo para começarem uma discussão. Vendo que os dias se passavam e os problemas não se resolviam, o casal decidiu consultar o padre.
O padre disse para eles que isso aí era um problema muito comum, e que a solução seria adotar um bode que ele tinha ali nos fundos da igreja. O casal achou esquisita a sugestão do padre, mas pegaram o bode e levaram para a fazenda.
Os dias se passaram, e aparentemente o padre estava errado. Se eles já tinham problemas antes, agora os problemas se multiplicaram com a presença do animal. Ele gritava todos os dias pela manhã, invadia a casa, quebrando objetos, dando coices nas pessoas, assustava as crianças. Era impossível domá-lo ou acalmá-lo, o bicho era uma força do caos, destruindo tudo em seu caminho.
Depois de algum tempo o casal voltou ao padre, reclamando e acusando-o pela maluquice que virou suas vidas. O padre disse que se o bode estava causando problemas, que eles poderiam deixá-lo ali com ele.
Levaram o bode até o padre novamente, o deixaram lá. Quando chegaram em casa, de repente, tudo estava em paz, sem a gritaria, a destruição e o caos dos últimos dias. Os pequenos problemas que faziam o casal brigar não pareciam mais tão relevantes. Então o casal entendeu o que o padre fez por eles, e daquele dia em diante, pararam de brigar por qualquer besteira.
(Conto popular, autoria desconhecida)
Meu pai me contou essa história num leito de hospital, alguns dias antes de falecer. Foi uma das últimas coisas que ouvi dele, antes de abraços e despedidas. Volto no causo e fico fazendo comparações e analogias. Numa analogia, meu pai era o bode no meio da sala, causando todo tipo de constrangimento. Outras vezes, ele era o marido e pai, cansado das dificuldades. Às vezes ele era o próprio padre, sugerindo para os outros que não dessem tanta importância a problemas pequenos. Essas comparações, no entanto, são apenas tentativas de dar significado e transcendência à realidade.
As narrativas sempre me ajudaram a lidar com meus próprios problemas. Antes de tudo, escrever para mim sempre foi terapia, uma forma de olhar para dentro e conseguir lidar com a injustiça e os acontedimentos difíceis da vida através do encantamento e do fascínio. Mas aqui a narrativa encontra o seu limite. Consigo apenas desabafar em forma de texto, escrevendo o que me vem a mente, dando voltas em torno do assunto. Não dá pra descrever, romantizar, poetizar, construir início, meio e fim, motivações, conflitos. Só é possível jorrar palavras aleatórias na tela em branco.
Quando comecei essa newsletter, eu não sabia que páginas tão grandes seriam viradas tão rapidamente. Mas a partir desse momento, tudo é incerto, os caminhos que irei seguir, meu senso de identidade, as pessoas que irão decidir continuar por perto depois de mais mudanças drásticas. Não sei dizer exatamente o que me aguarda.
Se chegou até aqui, obrigado por aguentar ler esse relato autocentrado. Espero que você mesmo tenha condições de encontrar as lições, as transcendências, os significados nesse amontoado de palavras.
Essa página está sendo virada, aos poucos, como se ela pesasse meia tonelada, e com a incerteza de que será possível virá-la completamente. Com a incerteza de que tenho o direito de fazê-lo.
A vida, às vezes, é crua e indigesta.

